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julho 2, 2010

INDISCIPLINA NA ESCOLA /NÚBIA

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INDISCIPLINA NA ESCOLA

ELLEN NÚBIA FEITOSA COSTA DA SILVA

Eu sempre sonho que uma coisa gera, nunca está morto. O que parece vivo, aduba. O que parece estático, espera.
Adélia Prado

1. A INDISCIPLINA NA VISÃO DE ALGUMAS EDUCADORAS

A indisciplina é a ausência de disciplina, que via de regra, pode ser definida como uma forma de controle dos indivíduos, pois ao falarmos nela sob a ótica educacional, estamos sempre nos reportando à falta de domínio sobre as atitudes dos educandos, tidas como inadequadas ao processo educativo.
De acordo com o dicionário a palavra disciplina significa “regime de ordem imposta ou livremente consentida. Ordem que convém ao funcionamento regular de uma organização. Relações de subordinação do aluno ao mestre ou ao instrutor. Observância de preceitos e normas. Submissão a um regulamento”. E o termo indisciplina é definido como “procedimento , ato ou dito contrario a disciplina, desobediência; desordem; rebelião” (FERREIRA, 2001, P. 595)
Costumamos, então através dessas definições, compreender que a indisciplina prejudica o processo educacional, uma vez que traduz-se como a incapacidade do (s) aluno (s) em obedecer às normas de comportamento impostas pelo regime escolar tidos como adequados ao ambiente da sala . Segundo REGO (1996):

Costuma-se compreender a indisciplina , manifestada por um individuo ou um grupo, como um comportamento inadequado , um sinal de rebeldia, intransigência, desacato, traduzida na falta de educação ou de respeito pelas autoridades , na bagunça ou agitação motora.(…) A disciplina parece ser vista como obediência cega a um conjunto de prescrições e, principalmente, como um pré-requisito para o bom aproveitamento do que é oferecido na escola. Nessa visão, as normas são imprescindíveis ao desejado ordenamento, ajustamento, controle e coerção de cada aluno e da classe como um todo. É curioso observar que, nesta perspectiva, qualquer manifestação de inquietação, questionamento, discordância, conversa ou desatenção por parte dos alunos é entendida como indisciplina , já que se busca “obter a tranquilidade , o silencio a docilidade, a passividade das crianças de tal forma que não haja nada nelas que as possa distrair”. (p.85)

Pensando nisto resolve pesquisar1 com algumas profissionais da educação seus julgamentos a respeito do tema em questão. Entrevistei quatro professoras do primeiro circulo do Ensino Fundamental, fazendo a seguinte pergunta: O que você entende por indisciplina escolar e quais as suas causas?
A professora V.G. ( Pisicopedagoga) respondeu o seguinte:

Indisciplina é um mal que assola muito a educação de hoje em dia. Antigamente quando eu era aluna, a gente sabia respeitar os professores. Os alunos perderam esse respeito e chegam até a ofender a gente, tem aluno que falta é bater em professor…Pra mim, a principal causa da indisciplina é a falta de limite que as crianças de hoje não tem. Os pais não conseguem mais impor limites e então elas aprontam o que querem e nós professores é que pagamos o pato.

A professora E. A. (Pedagoga , especialidade em coordenação e supervisão escolar) disse:

_______________

A indisciplina costuma fazer parte do nosso cotidiano de trabalho como tantos outros empecilhos que temos que enfrentar para conseguir dar momentos de estudo. Entendo como um problema que prejudica demais a aprendizagem, porque basta um aluno indisciplinado para atrapalhar todo o processo. A meu ver ela tem muitos fatores, mas o que mais vejo é a questão da falta de interesse dos alunos, a falta de compromisso dos pais e professores com o processo educacional.

A professora )L.G. (Historiadora) respondeu:

Discutir este tema é bem difícil porque não se trata de uma questão simples. Tem haver com uma rede entrelaçada de fatores, mas vejo a indisciplina como uma coisa natural na educação atual que não tem mais a rigidez de antigamente quando os alunos só obedeciam por causa dos castigos que eram bem severos. Hoje não há mais tanta repressão então as crianças se rebelam mais, no sentido de se mostrarem como elas são. Existem alunos calmos, que conseguem se comportar e outros simplesmente ignoram as normas, por diversos motivos, depende da natureza mesmo do aluno.

Já a D.M .( Pedagoga) respondeu que:

Indisciplina é a incapacidade que muitos alunos têm de obedecer às normas e regras da escola, da sala de aula, prejudicando o processo de aprendizagem deles e muitas vezes da turma toda. É quase impossível encontrar uma sala sem esse problema. E as suas causas são variadas, mas vejo que na maioria das vezes é a falta de interesse pelo o que estar sendo estudado ou pela metodologia utilizada pelo educador.

Podemos concluir através da participação das professoras que a indisciplina, talvez seja, o inimigo número um do professor, cujo manejo, ainda é difícil, uma vez que se trata de um fator que ultrapassa o âmbito puramente didático-pedagógico, pois a indisciplina se configura enquanto um problema interdisciplinar, devendo ser estudada por todas as áreas que tratam do processo educativo.
Como pudemos notar as professoras entrevistadas apontam a indisciplina como um grande empecilho dentro da escola e uma questão de difícil solução, uma vez que é um problema multifatorial. As exposições das professoras testificam que a questão disciplinar é, atualmente, uma das dificuldades intrínsecas ao processo escolar. De acordo com as falas, podemos afirmar que para elas a educação tem como um de seus maiores obstáculos a conduta dos alunos, traduzida pelos termos citados: falta de respeito, ofensa, falta de limite, falta de interesse, etc., mas o detalhe que mais chamou a minha atenção:
Encontra-se nas falas das professoras E.A. e D.M. quando apontam que uma das causas da indisciplina está associada a falta de interesse dos alunos pelo o que está sendo estudado. Sobre isso, AQUINO (1996) questiona:

Quais significados, então, poderiam subtrair dos fenômenos que rondam esta nova escola, incluída ai a indisciplina? Ela pode estar indicando o impacto do ingresso de um novo sujeito histórico, com outras demandas e valores, numa ordem arcaica e despreparada para absorvê-lo plenamente. Nesse sentido, a gênese da indisciplina não residiria na figura do aluno, mas na rejeição operada por esta escola incapaz de administrar as novas formas de existência social concreta. (…) Equivaleria, pois, a um quadro difuso de instabilidade gerado pela confrontação deste novo sujeito histórico a velhas formas institucionais cristalizadas. Ou seja, denotaria a tentativa de rupturas, pequenas fendas em um difícil secular como é a escola, potencializando assim uma transição institucional, mais cedo ou mais tarde, de um modelo autoritário conceber e efetivar a tarefa educacional. p. 45)

Ainda, de acordo com ESTRELA (1992), os atos de indisciplina podem ser classificados em três tipos. O primeiro tipo de indisciplina é aquela que se caracteriza pela intenção de escapar do trabalho escolar, pois este é considerado tedioso, sem importância, desinteressante, então, evitar o trabalho escolar é a razão da indisciplina.
O segundo tipo de indisciplina objetiva a obstrução, ou seja, impedir parcial ou totalmente o desenvolvimento do curso das atividades planejadas pelo professor.
Já o terceiro tipo de indisciplina é aquela pautada no protesto contra as regras e as formas de trabalho. Quando as mesmas não são claras, ou são incoerentes, os alunos procuram elaborar estratégias para ignorá-las, o que se transforma em indisciplina, então, para prevenir esse comportamento recomenda-se a participação dos alunos na elaboração das atividades realizadas.
De forma generalizada, podemos dizer que a indisciplina é provocada por problemas de ordem familiar, psicológica, pela estrutura escolar, por motivos sócio-históricos e culturais, e ainda, pode estar relacionada ao trabalho do professor, seu método pedagógico. O que denota que a indisciplina, além de ter causas múltiplas, vai se transformando ao longo do tempo porque como todo processo humano, encontra-se atrelada, inserido a um contexto sócio- histórico e cultural, conforme nos revelou, anteriormente, AQUINO (1996).
Assim, podemos dizer que o conceito de indisciplina pode ser explicitado de várias maneiras, sendo objeto de múltiplas interpretações. Dependendo da faceta analisada, ou seja, do ponto de vista do qual partimos: da escola, do professor ou do aluno. O que torna a indisciplina um fenômeno em constante movimento, pois não se trata de um elemento imóvel, sempre com as mesmas características.
A forma como ela se expressa depende muito da época e do contexto. Por isso, é fundamental não assumir o posicionamento de culpabilizar sempre o aluno nos processos indisciplinares, uma vez que não é possível que a indisciplina seja sempre atribuída ao aluno, tratando-a como um problema de natureza exclusivamente psicológico e moral. Não é possível, também, atribuí-la totalmente à estruturação escolar, assim como atribuir toda a responsabilidade dela ao trabalho do professor, analisando-a apenas como um problema de caráter didático-pedagógico, porque ela se configura como um fenômeno transversal as unidades conceituais (professor/aluno/escola), ou melhor, indisciplina é mais um dos efeitos do entre pedagógico, mais uma das vicissitudes da relação professor-aluno, para onde fluem muitas desordens (AQUINO: 1996).

2.A INDISCIPLINA COMO FORÇA DE RESISTÊNCIA

O conceito de indisciplina já carrega consigo um sentido negativo de desordem, bagunça e falta de controle, entretanto, voltando nosso olhar para outro significado, podemos ressaltar que ela pode ser sinal de desordem com um sentido positivo.
Ao analisarmos o ato pedagógico sob o prisma da construção do conhecimento e da autonomia do aluno, consideramos que a indisciplina pode assumir um ar de inconformismo e resistência à imposição do educando enquanto mero receptor de conhecimentos desfragmentados de sua realidade.. De acordo com PASSOS (1996) a indisciplina pode adquirir um significado de ousadia e de criatividade.

Percebam que não estou negando a necessidade da disciplina, mas quero colocá-la num plano secundário, para fortalecer aquilo que se coloca num plano anterior a ela, que é a aprendizagem e a relação que ela pode gerar com o saber. Nesse sentido, entendo que o ato pedagógico, enquanto momento de construção de conhecimento, não precisa ser um ato silenciado, que reduz o professor à única condição “daquele que ensina” e faz o aluno não extrapolar sua condição de “sujeito que aprende”. Ao contrario, o ato pedagógico é o momento do emergir das falas, do movimento, da rebeldia. Da oposição, da ânsia de descobrir e construir juntos, professore e alunos. (p. 118)

Percebemos que grande parte das escolas preconiza sempre a manutenção da ordem, justificada pela necessidade da pedagogia bancaria (FREIRE, 1996) que vê a submissão dos alunos como condição essencial ao aprendizado. Segundo ENGUITA (1989):

Basta recordarmos nossa própria experiência como aluno ou professor, ou visitar uma sala de aula, para evocar ou presenciar um rosário de ordens individuais e coletivas para não fazer ruído, não falar, prestar atenção, não movimentar-se de um lugar ao outro. (p. 119)

Sendo assim, refletimos como ainda é presente na relação professor-aluno a questão da autoridade e da hierarquia, uma vez que o aluno submisso ao professor, faz-se dócil a um sistema atrelado aos velhos dogmas e paradigmas pedagógicos em que a autoridade inquestionável é o professor, cabendo ao aluno apenas a obediência às regras impostas, ao invés de estar propiciando momentos de construção de conhecimento por meio de um ambiente motivador do raciocínio e da autonomia. Podemos perceber como o sistema educacional atual é movido sempre pelas mesmas dicotomias. De acordo com PASSOS (1996):

Isto nos faz expressar uma inquietação em relação à dicotomização que se tem feito em relação aos processos pedagógicos ao classificá-los em tradicionais ou novos, ao priorizar conteúdos sobre métodos (ou vice-versa), ou a disciplina sobre a indisciplina, além de outras classificações que terminam por fragmentar em demasia o ato pedagógico . (…) Assim, considero necessário que o tratamento pedagógico da pratica em sala de aula (e mais especificamente, das questões disciplinares) seja pensado no âmbito de uma pedagogia critica.(p. 119)

Analisando a indisciplina sobre a ótica da pedagogia critica, podemos pensá-la como um meio de analisar nossa pratica cotidiana e a educação como um todo, pois a pedagogia que aí estar com seus métodos ultrapassados se encontra defasada e não surti mais efeito. Querer educar os alunos de hoje do mesmo modo de décadas atrás é preâmbulo de fracasso. Novos alunos pedem novas práticas e a indisciplina tão presente na escola atual, serve como sinal da urgência de mudanças profundas na educação, temos que reestrurar nossas ações frente à contemporaneidade. Como podemos oferecer uma educação de qualidade utilizando formulas antigas que não condizem mais com a realidade dos alunos?
As crianças não conseguem mais ficar horas a fio sentadas, assistindo a um monólogo sem fim do professor. Elas urgem por uma aula mais dinâmica, participativa, enfim mais antenada à rapidez do tempo em que vivemos. Daí, a nosso ver, uma das causas possíveis da indisciplina. Os alunos indisciplinados podem estar apenas se rebelando contra uma forma pedagógica que não tem nada a acrescentar a intensidade e velocidade da nossa vida cotidiana . Afinal, estamos na era da tecnologia da informática, entretanto a escola ainda não conseguiu acompanhar os novos tempos. Resumindo, temos uma escola velha para alunos novos, então a desconexão é inevitável . PASSOS (1996) coloca que o cotidiano, as vivências do aluno e as relações que ele estabelece com a família, com a sociedade e principalmente com a escola têm a ver com a indisciplina:

Não vejo a possibilidade de isolar a indisciplina do que parece ser um sintoma daquilo que a própria escola produziu, seja em termos do significado dos seus conteúdos, as estratégias de trabalho na sala de aula, ou, ainda, do modo de encarar os alunos e partilhar com eles os espaços, as vozes, o tempo. (p.121)

Desse modo, torna-se importante ressaltar nossa inegável dificuldade de mudança, apesar de termos a consciência de nossos erros. Sabemos que os alunos (crianças e jovens), estão sempre prontos e ansiosos por novos conhecimentos e descobertas, pela transposição do óbvio, desde que sejam instigados para tanto, o que com certeza depende da forma como os conhecimentos são apresentados no pequeno universo de cada sala de aula.
Dentro desta perspectiva, não necessitamos de imposições e abusos de autoridade, tampouco alunos estáticos e calados, ao contrário devemos evocar a inquietação e o desconcerto como sinônimos de um convite à descoberta, a uma desordem produtora de uma nova ordem, estruturada em uma educação e em uma escola que muito além de socializar seus alunos, consiga motivar a existência de crianças e jovens criadoras, inventoras e produtoras de conhecimento e não alunos apáticos e sem vontade de se entregar a disciplina da mesmice, do silêncio e do conformismo.

2. CONCLUINDO

Como pudemos perceber através da visão das professoras entrevistadas, a indisciplina é um mal que assola a educação e atrapalha o bom desenvolvimento dos momentos de estudo. É, segundo elas, um processo multifatorial. Entretanto, elas apontaram como um dos motivos para sua existência à falta de interesse dos alunos no andamento dos estudos. O que nos faz analisar a realidade ultrapassada de nossa educação que não consegue mais envolver os alunos, uma vez que sempre se utiliza das mesmas fórmulas, esquecendo que novos alunos pedem novas metodologias, condizentes com suas realidades sócio- históricas e culturais, gerando dessa forma, processos indisciplinares nos alunos que podem estar associados ao inconformismo com a realidade maçante da sala de aula que não estão contextualizada com esse aluno.
A indisciplina deve ser analisada por vários ângulos, pois suas dimensões são variadas, não podemos imputá-la somente a um ou outro ator do processo educativo, mas a nosso ver ela diz muito a respeito da má adaptação da escola aos tempos atuais, ou seja, às necessidades sócio- culturais dos alunos que ai estão. Dentro deste contexto, ela pode estar significando uma forma de rompimento contra a insuportável falta de consonância entre a escola e o aluno que não aguenta mais a sofrível tarefa de frequentar a escola com seu amontoado de conteúdos que devem ser deglutidos sem motivação e criatividade.
Portanto, é essencial pensar na indisciplina, não apenas como um problema de ordem estrutural, que atrapalha o processo educativo, mas também como um alerta a urgente necessidade de mudanças profundas na educação, na escola e na sala de momentos de estudo.

BIBLIOGRAFIA

AQUINO, R. Groppa. A desordem na relação professor-aluno : indisciplina , moralidade e conhecimento. IN: AQUINO, Julio Groppa (org.). Indisciplina na escola: alternativas teóricas e praticas. São Paulo: Summus, 1996.

PARRAT-DAYAN, Silvia. Como enfrentar a indisciplina na escola. São Paulo: Contexto, 2008.

DE LA TAILLE, Yves J. J. M. R. Prefácio à edição brasileira. IN: PIAGET, Jean. O juízo moral na criança. São Paulo: Summus, 1994.

_________________________. Limites: Três dimensões educacionais. São Paulo: Ática, 1998.

ENGUITA, M. F. A face oculta da escola. Porto Alegre: Artes Médicas,1989.

ESTRELA, M. T. Relação pedagógica, Disciplina e Indisciplina na aula. Porto: Porto Editora,1992.

FERREIRA, Aurélio B. H. Dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

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